[Relato de Viagem] Os Passos de Anchieta – Dia 01

[Relato de Viagem] Os Passos de Anchieta – Dia 01

 

Desde adolescente um dos meus maiores sonhos é fazer o Caminho de Santiago de Compostela, e somente em 2015 esse sonho começou a se configurar de uma forma diferente. Sentia que o momento estava chegando. Estava ficando cada vez mais pronta para dar esse passo.

É muito louco como nossa mente vai se abrindo de acordo com aquilo que passamos e pela forma como construímos nossa jornada. A vida é feita de fases e a cada nova dificuldade que superamos, novas portas se abrem, nos levando a novos mundos com diferentes desafios.

E lá, neste novo mundo, enfrentamos monstros mais horripilantes e mortais, ao sobrevivermos a eles ficamos prontos para o próximo… e o próximo, o próximo e o próximo… sem fim.

E foi então naquela época, em um novo mundo desbravado, que surgiu uma data em minha cabeça: Setembro de 2017. Não me pergunte o porquê de setembro ou do 2017, mas essa data simplesmente apareceu e ficou.

E tudo bem! Deixei aquela data guardada e fui vivendo meus dias com suas conquistas, desafios e adversidades da melhor forma que eu poderia… até que 2017 chegou e me dei conta de que o senso de urgência e necessidade de percorrer aquela jornada estava cada vez mais forte dentro de mim.

Neste contexto, El Camiño representa o fim – e também o início – de um ciclo em minha vida, que começou há 05 anos, em uma jornada de autoconhecimento e enfrentamento.

Como cenário desta grande conquista, decidi pelo Caminho Português por dois motivos: Primeiro pois é um pouco mais curto do que o caminho Francês e assim poderia ficar menos de 30 dias fora – depois que a People nasceu, nunca mais consegui tirar férias maiores do que 15 dias, portanto, esta viagem já é um desafio.

E segundo porque Portugal é um dos berços de minhas origens. Meu avô materno veio para o Brasil com 14 anos, assim como meus bizavôs, pais de minha avó materna, que também são de origem portuguesa.

Terminar – e começar – um ciclo em um dos lugares que representa e gerou meus antepassados é como sinto que deve ser.

E é muito louco como o sentir nestes momentos faz muito mais sentido do que qualquer lógica, pois por mais que exista uma razão consciente em tudo aquilo que fazemos – é preciso estudar o trajeto, compreender o que nosso corpo precisa, comprar os equipamentos certos – é o emocional e a intuição que tomam conta e que têm voz na tomada de qualquer decisão.

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E isso foi uma das coisas que aprendi com a preparação dessa viagem. Aliás: preparação é outra coisa muito louca nestas circunstâncias.

Todas as pessoas – sem exceção – que ficam sabendo da minha viagem me perguntam se estou me preparando para os quase 400km que estão por vir, mas a verdade é que não tenho certeza se existe tal preparação para esse tipo de jornada. A preparação não é só física, mas também mental, e a grande pergunta é: como se preparar por algo que só conhecerei quando estiver lá? Como posso me preparar para algo tão peculiar?

Cada dia mais, me convenço de que a preparação se faz no próprio caminho, e se considerar que essa jornada já começou em 2012, pode ser que esteja mais preparada do que imaginamos.

E são menos de 2 meses para o meu embarque, então não há muito mais o que preparar a não ser esperar o dia da viagem.

Apesar de cada situação ser única, no último feriado de Corpus Christi tive uma pequena amostra de como poderá ser a grande viagem. Fiz a minha primeira peregrinação oficial, onde percorri Os Passos de Anchieta no estado de Espírito Santo.

São 100km percorridos em 04 dias, e eu quero contar um pouco o que aprendi por lá, afinal esta viagem não foi apenas um preparo para Santiago, como também parte da jornada.

Para os textos não ficarem muito extensos e pesados, decidi separá-los por dias percorridos, então, enviarei os relatos de cada dia de viagem a cada semana a partir de hoje.

Bora lá então para o Dia 01:

Relato de Viagem – Dia 01 – 15/06/2017

A concentração foi na Catedral de Vitória, de onde saímos até Vila Velha. Percorremos as Praia da Costa, Itapoã e Itaparica até chegar em Barra do Jucu. Total de 25 km.

Ao final do primeiro dia, percebi que ainda há muito o que aprender sobre a vida e que, por mais que tentemos acreditar que há uma preparação para cada jornada, é somente a cada passo que somos capazes de conhecer e entender nosso interior, com seus limites, medos e desejos.

Assim como na vida, percorremos tantos lugares e são eles que nos formam. E também aqui, percorrendo cada passo, ainda na empolgação do primeiro dia, entendi que a vida é muito maior do que acreditamos ser e que é só a cada passo que se faz o caminho. 

A imagem pode conter: sapatosNeste dia, meus pés conheceram as primeiras bolhas – e não foi uma só. Meu tênis não é o certo, minha meia não é a certa e as bandagens que comprei para proteger os pés também não são as certas.

Descobri que nosso corpo aguenta caminhar horas e horas só com frutas e água… e que quando o pé dói – e ele dói muito mais do que as pernas – você precisa focar na mente, se não, a vontade de desistir se torna cada vez maior. Tudo está na mente e nesse momento, só você pode se dar força. 

Cheguei aqui gripada, com dor nas costas e com uma dor no pescoço e ombros que me acompanhava há uns 2 meses mais ou menos… E no meio da caminhada, me dei conta que estava respirando melhor e sem nenhuma dor nos ombros e no pescoço… ou isso é muita mágica, ou a dor nos pés foi maior.

Também presenciei a incrível forma como todo peregrino se disponibiliza para o coletivo com o mesmo potencial que para o individual. Em um momento, estava tentando desfazer um nó na minha mochila e uma mulher parou o que estava fazendo e foi me ajudar. Recebi ajuda sem nem pedir e o mais incrível é que depois disso, ela simplesmente seguiu seu caminho e eu o meu.

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É comum ver pessoas ajudando pessoas, umas falando com as outras, mas ao mesmo tempo, cada um sempre segue em seu mundo muito particular.Não existe apego, nem nos olhares que se cruzam diversas vezes ao longo do trajeto. Somos todos conhecidos ao mesmo tempo que desconhecidos, e ainda assim podemos compartilhar uma mesma trajetória. 

E para concluir os aprendizados de hoje, no meio de tantos pensamentos, teve uma pergunta que surgiu mais de uma vez: porque eu estava fazendo aquilo? Porque o desejo de percorrer o caminho de Santiago me acompanhava há tanto tempo? 

E a verdade é que não tive uma resposta. Meu corpo era o único que sabia que, mesmo com toda a dor nos pés, nas pernas e os perrengues, essa era a única coisa que eu deveria estar fazendo naquele momento… quem sabe até o final dessa primeira jornada, tenha uma resposta diferente… mas se não tiver tudo bem, porque sei que vou mesmo assim!

Um super beijo,
Van

*Todas as fotos são próprias, tiradas durante os Passos de Anchieta.

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